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Dom Luciano: Opção preferencial pelo outro

  
Ao iniciar este texto vale reafirmar as palavras iniciais da Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo de hoje Gaudium Et Spes,
 
 
 
As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração (GS, 1).
 
 
 
 
 
            Essas profundas palavras confirmam sempre com renovado vigor a característica fundamental do profetismo, e ainda, a marca daqueles que se colocam no seguimento de Jesus. Toda e qualquer realidade humana deve encontrar eco nos corações dos discípulos de Cristo. Não é a intenção aqui tratar de uma biografia, mas expor a pessoa de Dom Luciano Mendes de Almeida que fez de sua existência uma opção de profunda radicalidade e zelo pelo Reino de Deus e sua construção.
 
            Da mesma forma não é o objetivo aqui elevá-lo ou exaltá-lo, não obstante sua postura relevante para isso, mas esse texto é ornado apenas com uma intenção: falar de Dom Luciano e de sua amorosa opção por Jesus, e, concomitantemente, pelo outro. A pergunta feita por Jesus ressoava sempre aos ouvidos do Arcebispo: “quem é meu próximo?” (Lc 10, 29). Assim sua preferência alargava as expectativas, pois era simplesmente pelo outro.
 
            Haja vista que dormia apenas quatro horas por noite, dedicava-se aos estudos, e sua vida foi marcada por visitas aos hospitais, creches, asilos e prisões, sempre com uma palavra de apoio e carinho, com efeito, nunca se absteve das grandes reuniões episcopais, palestras nos mais variados campos, temas e lugares, que com total brilhantismo e eficiência correspondia a todas as situações às quais era exposto.
 
            Com humildade própria fazia sempre presente as palavras do Evangelho “é preciso que ele cresça e eu diminua” (Jo 3, 30). Assim, buscava sempre fazer Jesus estar presente e sobremaneira ser presença em meio aqueles que o próprio mestre estaria junto.

 
 
 
Luciano, no ver o outro, chegou, sem perceber, ao toque da despossessão radical, na simplicidade do partilhar o último desconforto e o abandono de toda a amenidade do cotidiano [...] a impaciência com o absoluto só se traduzia, sem que se desse conta meu irmão, na pergunta: em que posso servir? (MENDES, 2007, p. 12).
 
  
 
            Essa oportuna consideração do seu irmão Cândido Mendes é necessária para somar as características que fazem de Dom Luciano um mestre espiritual para os dias de hoje. Esse título é cabível a ele pelo simples fato de ter sido um grande ouvinte, e ter permitido que o Evangelho o fizesse, sobretudo, profeta do amor. Ao olhar para a figura daquele Arcebispo é possível pensar que a vida de um verdadeiro vocacionado não pertence a este, mas a Deus, e que o outro é a razão da existência de qualquer discipulado autêntico.
 
            “Em que posso servir?” frase que se tornou um jargão para Dom Luciano, ressoa aos ouvidos como um conforto e um desafio. Conforto porque é cativante saber que existe alguém que é sensível às necessidades; desafio, pois incita cada homem a lutar contra a barreira do próprio egoísmo, a vencer a si mesmo em prol de uma nobre causa. Pensar sobre as ações do Arcebispo remete a pensar as palavras de Nosso Senhor:
 
 
 
Pois eu estava com fome, vocês me deram de comer; eu estava com sede, e me deram de beber; eu era estrangeiro e me receberam em sua casa, eu estava sem roupa, e me vestiram; eu estava doente, e cuidaram de mim; eu estava na prisão, e vocês foram me visitar. (Mt 25, 35-36).
 
 
 
            Essa perícope de São Mateus era um imperativo para Dom Luciano e que sintetizava sua vida, pois para ele “o cerne da felicidade humana está em fazer o bem” e para isso é preciso “amar a pessoa na sua maior necessidade”. Ao contemplar suas atitudes para com o outro é possível obter uma nova perspectiva para o sofrimento humano, pois mesmo ele sendo inerente a estrutura de cada ser humano, torna-se a oportunidade que possibilita ao homem realizar-se na doação.
 
            Com efeito, o amor para Dom Luciano torna-se exemplarmente cristão e exigente para a categoria humana, pois, torna-se manifesto o amor de Jesus, que é um amor que não exige reciprocidade, mas que exige apenas que se ame, é o amor na sua forma mais autêntica, é amar pelo simples fato do outro existir e, em Cristo, ser mais um irmão pelo qual se deve todo o zelo.
 
            O Arcebispo ensinava a identificação com Jesus de Nazaré reforçando a sua total entrega e preocupação com o outro,
 
  
 
De que modo Jesus Cristo tratou a pobre mulher envergonhada e acusada de pecado? “Mulher ninguém te condenou? Nem eu te condeno. Vai e não peques mais”. Lembremo-nos de como Jesus Cristo tratou o apóstolo que o negara, colocando-o em primeiro lugar entre seus apóstolos. Jesus Cristo demonstrou estima por aqueles que eram desconsiderados, os publicanos. Convida Mateus para ser seu discípulo. Aprendamos com Jesus Cristo a alegria de oferecer de novo à pessoa a consciência de sua própria dignidade. Dimas, ladrão, com as mãos cravadas na cruz, foi por Jesus convidado a entrar por primeiro na felicidade do paraíso. Somos discípulos desse Mestre e Educador. É a sua lição que devemos assumir como a missão de nossa vida, imitando-o. (ALMEIDA, 1996, p. 45-46).
 
 
 
 
            Essas palavras de Dom Luciano apontam para uma espiritualidade que culmina em uma consciente alteridade. Direcionando a ação e a prática cristãs ao novo modelo de seguimento. É uma espiritualidade consistente e palpável, pois se realiza no dado sensível, na experiência com o outro, que gera desconforto e suscita esperança.
 
            Seus ensinamentos isolam a idiossincrasia leve e impele a todos a fixarmos os olhares em Jesus e sermos seus imitadores. O Arcebispo não quis discípulos para si, mas era discípulo por antonomásia, e vivia do anúncio. Sobre a vocação sacerdotal afirmava:

 
 
Nunca deixe que as dificuldades se tornem causa de dúvida de sua vocação. Nesses momentos, a pergunta que se deve fazer não é ‘eu tenho vocação?’ Mas sim ‘como estou vivendo a minha vocação? Estou visitando um pobre, um doente... praticando a caridade?’ (ASSIS, 2010, p. 133).
 
 


            Essas palavras foram proferidas em um de seus retiros para que renovasse no coração daqueles que o ouviam uma nova perspectiva, um novo jeito de ser, uma esperança em seu desânimo vocacional; considerava a vocação ao sacerdócio um dom, e estimulava sempre o bom desenvolvimento dele, como uma constante resposta a Deus.
 
            Suas meditações e orações intensas possibilitaram o conhecimento de si mesmo, fazendo de sua frágil humanidade um palco para a santidade de Deus. Com efeito, fazer o bem não era uma ordem, mas expressão de seu amor ao próximo para agradar a Deus. Pois ele entendia os dois fundamentais mandamentos do Senhor que são: amar a Deus com toda força e todo entendimento e imediatamente Jesus também afirmou que devemos amar o próximo como a nós mesmos. Nessa gratificante interação é que o ser humano se plenifica, e se assemelha mais ainda a Jesus de Nazaré.
 
            O Arcebispo de Mariana sentiu o Evangelho pulsar em si como o próprio pulsar do coração, a ponto de acabar não se pertencendo, mas sendo um com cada um, e com isso, restaurando a dignidade de cada pessoa. Ele mostrava para todos a face de um Deus que é ternura, que abraça e não julga.
 
            A existência de Dom Luciano, não foi um privilégio, visto que ele assumiu sua humanidade com tudo aquilo que lhe é própria e viveu para Deus, dedicou-se aos pobres e à oração, no entanto, sofreu um terrível acidente na estrada próximo a Mariana. Isso quer dizer que aquele que reza e faz o bem não deixa de ser aquele que é, ou seja, humano, limitado, frágil, mas está sujeito as mesmas possibilidades.
 
            E, com todas as intempéries do existir humano. Ele sempre dizia que “Deus é bom”, e ainda “não passei um dia sem ser feliz”, isso justifica pela sua opção, que era simplesmente o outro, aquele seu próximo, aquele que precisa apenas uma palavra. Dom Luciano revela uma nova forma de ser santo, pois o maior milagre para ele era a vida, pois ter o grande privilégio de existir é uma graça de Deus, e já que essa graça não era dele, ele não podia tomá-la para si, num gesto de egoísmo, mas partilhava até mesmo isso.
 
            No entanto ele ensinou aos seus uma forma simples de viver o Evangelho, mostrou que a utopia de Jesus de Nazaré pode ser alcançada, que o Reino de Deus pode ser implantado aqui mesmo. Pois, para Dom Luciano o céu “não é um lugar onde projetamos nossos egoísmos, mas céu é ver os outros felizes”, ser a causa disso, “é alegrar-se com a felicidade dos outros”. Enquanto peregrino neste mundo é necessário ao ser humano semear e cultivar para que se produza bons frutos, pois toda e qualquer atitude, vai ao âmago da pessoa, atingi-a no seu íntimo.
 
  
 
Dom Ivo Lorsheiter costumava dizer que, se, por acaso numa audiência papal, alguém se interpusesse a uma chamada pelo pontífice, por entre o caminho engalanado, claro, Luciano o interromperia para ouvir o carente ou o necessitado do instante. (MENDES, 2007, p. 106).
 
 
 
            Ao ler sobre Dom Luciano, doutor em filosofia, é inevitável ter uma nova concepção de ser humano; se, para Heidegger o homem é um ser aí, se, para Hegel o homem é um ser em totalidade, se, para Henrique Lima Vaz o homem é um ser situado, para Dom Luciano o homem é um ser que se entrega.
 
            No entanto, é possível e necessário que se entregue pela causa do bem pela alegria de ver um sorriso no rosto de qualquer pessoa numa única e exclusiva justificativa que é o amor, é isso que o Arcebispo fez de maneira ímpar na história enobrecendo-a pela simplicidade de seu existir.
 
            Pois “não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração” (GS, 1), e “Deus é bom”. Dom Luciano, rogai por nós!
 
  
 
REFÊRENCIA BIBLIOGRÁFICA
 
 
ASSIS, Margarida Drumond de. Dom Luciano especial dom de Deus. Rio de Janeiro: Educam, 2010.
 
ALMEIDA, Luciano Mendes de. Jesus Cristo luz da vida consagrada. São Paulo: Loyola, 1996.
 
MENDES, Cândido. Dom Luciano, o irmão do outro. 2.ed. São Paulo: Paulinas, 2007.
 
 
CONSTITUIÇÃO PASTORAL DO CONCÍLIO VATICANO II SOBRE A IGREJA NO MUNDO DE HOJE: Gaudium Et Spes. São Paulo: Paulin
 
 

Alessandro Tavares Alves

 Seminarista do Seminário Nossa Senhora de Guadalupe – Diocese de Leopoldina. Natural de Visconde do Rio Branco, Minas Gerais e residente em Juiz de Fora. Graduando em Filosofia pelo CES-JF/ITASA.

 

Comunicação Cientifica apresentado pelo aluno na XXV Semana Teológica e XIII Semana Filosófica  do Instituto Teológico Santo Antônio e CES/JF.

 

 


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