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A Igreja e sua relação com a contemporaneidade

A IGREJA E SUA RELAÇÃO COM A CONTEMPORANEIDADE

 

Alessandro Tavares Alves[1]

 

                        Essa questão é uma grande incógnita para aqueles que se dedicam a pensá-la. A humanidade está ávida por respostas e soluções satisfatórias e, nesse contexto, a Igreja, não está isenta da cobrança. Contudo, a forma com a qual ela deve oferecer tais respostas é a mais questionada e até mesmo, por diversas vezes, tidas como obsoletas. E até permite conceber que ela insiste em responder perguntas que já não são feitas no tempo hodierno.
            Pensar as questões do tempo atual onde impera fatores como relativismo, fundamentalismo, desvalorização da ética e da moral que de forma bastante direta influenciam tanto a questão institucional, quanto ao povo de Deus. O diálogo entre Igreja e a sociedade é urgente e delicado, no que concerne ao conteúdo e a forma com que deve ser expressa.
            É necessário compreender a oscilação do pêndulo da história que, no seu teor dinâmico conduz a consciência a encruzilhadas que, podem levar o homem a seu próprio fim. Os critérios são oscilantes, já não se pergunta sobre a Verdade, mas sim, sobre verdades, como meras construções sociais e que são sujeitas à perecibilidade com a maturidade da mesma consciência.

 

Segundo os Bispos do Brasil

 

 

 

porque deseja servir a Igreja reconhece o momento histórico em que se encontra, sendo convocada a buscar caminhos para a transmissão e a sedimentação da fé, mesmo que, para isso, precise abandonar estruturas ultrapassadas que já não facilitam mais a transmissão da fé. (DEGAE 27).

 

 

 

            Com efeito, esse reconhecimento é um imperativo positivo, mas que suscita duas pertinentes indagações: reconhecendo-se nessa posição, como trabalhar nesse espaço e nesse tempo de rápidas e profundas transformações? E, como responder a esse momento histórico sem um pleno envolvimento que pode ocasionar uma secularização da e na estrutura institucional da Igreja? A humanidade não vive somente numa mudança de época, mas numa época de mudanças, e está sedenta de luzes para ser governada de forma satisfatória.
            Igual preocupação é dirigida à Igreja, quando dela é cobrada uma pertinência no tempo e no espaço. Sendo referidas a ela palavras que a caracterizam como anacrônica e antiquada. Em um momento de hostilidade crescente à doutrina, ela caminha tentando soluções para si em meio ao emaranhado de questões que a circundam a todo o momento.
            O homem está de tal forma desnorteado que se vê ameaçado por aquilo que ele mesmo produz, a irracionalidade midiática que deteriora os valores fundamentais da vida e da família e propõe soluções e vias fáceis que levam a humanidade a meros equívocos, e alguns até mesmo irreparáveis.
            Esta mudança de época exige uma ação firme e consistente para uma solução eficaz e que urgentemente deve-se passar de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral que insistentemente vai até aqueles que precisam ouvir essa mensagem, que além de informativa, no sentido de informar uma mera notícia, é também performativa, pois tende a moldar quem a ouve com sinceridade e disponibilidade.

 

            A constituição Gaudium et Spes(26), aponta

 

  

 

Simultaneamente, aumenta a consciência da eminente dignidade da pessoa humana, por ser superior a todas as coisas e os seus direitos e deveres serem universais e invioláveis. É necessário, portanto, tornar acessíveis ao homem todas as coisas de que necessita para levar uma vida verdadeiramente humana: alimentos, vestuários, casas, direito à educação, ao trabalho, à boa fama, ao respeito, à conveniente informação, direito de agir segundo as normas da própria consciência, direito à proteção da sua vida e a justa liberdade mesmo em matéria de liberdade religiosa.

 

 
 

 

            Essa proposta consistente da referida constituição é salutar para o período da história atual, mas, isso responde integralmente à necessidade humana em seu sentido mais integral? Contudo, a Igreja não deve entrar na questão política de forma direta, pois não possui soluções técnicas para oferecer, mas, também, não pode ser alheia a tais questões, visto que estas atingem a pessoa humana em suas mais profundas dimensões (Cf. Caritas in Veritate, n.9).
            A Igreja enquanto sinergia de questões antropológicas e sociológicas vê-se questionada perenemente sobre sua verdadeira ação na sociedade, contudo é necessário incentivar uma colaboração consistente entre todos os seres humanos, crentes e não crentes, para uma real atitude em favor de si mesmos e da humanidade toda.
            O diálogo é feito com pessoas concretas, seres humanos concretos e contingentes, e não com um conceito metafísico imutável e inerte. É preciso reconhecer que no diálogo com as pessoas existe um conflito ideológico, e neste aspecto o respeito mútuo é valoroso, tanto para a instituição quanto para aquele que o recebe; já não são mais eficazes como antes, as mensagens universais e ortodoxas, onde a grande maioria a acatavam de forma obediente e cega. E esperava-se a mobilização do povo em direção a instituição, nos tempos de hoje, ocorre uma inversão desta lógica, é a instituição que deve movimentar-se até o povo e oferecer-lhe possibilidades, mas, sem dogmatismo e ortodoxia, fatores que contribuíram para esse período atual de grande hostilidade.

 

 

 

Contudo, estas conseqüências não são percebidas apenas pela redução numérica dos católicos. Elas são igualmente sentidas principalmente nas inúmeras formas de desrespeito e mesmo de destruição da vida. Todas as formas de exclusão revelam o distanciamento de Jesus e do Reino (DEGAE 32).

 

 

 

 

 

            Neste aspecto, o que preocupa não é apenas os dados indicados pela estatística, mas suas atrocidades contra a própria vida em seu sentido mais pleno. Cabe reconhecer, sobretudo, que a religião é uma dimensão do homem, assim como a técnica, arte, etc. E nesse sentido ela também sofre oscilações, e sendo assim possível tender também para campos funéreos e volúveis.
            É preciso ouvir mais o Evangelho, entender criteriosamente que a questão de quem anuncia e a questão do anúncio possuem um caráter ontológico. Ou seja, Jesus não anuncia algo que aprendeu de outro, mas sim, aquilo que Ele mesmo é. Com efeito, nisto consiste sua autêntica autoridade.
            A evangelização é uma complexa diligência em que há diversos elementos como: renovação da humanidade, testemunho, anúncio explícito, aceitação e leitura dos sinais dos tempos (Cf. EV 29) “mas a evangelização não seria completa se ela não tomasse em consideração a interpelação recíproca que se fazem constantemente o Evangelho e a vida concreta, pessoal e social dos homens.”
            Contudo, a evangelização não pode assumir um caráter proselitista, mas sim, de inteiro altruísmo, tentando perenemente através do anúncio, devolver a dignidade da pessoa ou simplesmente lembrá-las que a possuem. Tendo sempre em mente que toda pessoa, simplesmente por ser pessoa, é destinatário especial do anúncio.
            E aqueles que em nome de Cristo anunciam, devem ter um sentimento semelhante ao dos apóstolos, que não anunciavam uma doutrina sobre si mesmos, mas, uma mensagem que os antecedia e os ultrapassava. É necessário renovar o encontro pessoal para que a mensagem seja mais fecunda. Nesse sentido, Bento XVI, em sua Exortação Apostólica Pós - Sinodal Verbum Domini (2), destaca

 

  

 

Portanto, exorto todos os fiéis a redescobrirem o encontro pessoal e comunitário com Cristo, Verbo da vida que Se tornou visível, a fazerem-se seus anunciadores para que o dom da vida divina, a comunhão, se dilate cada vez mais pelo mundo inteiro. [...] E é dom e dever imprescindível da Igreja comunicar a alegria que deriva do encontro com a pessoa de Cristo, Palavra de Deus presente no meio de nós. Num mundo que frequentemente sente Deus como supérfluo ou alheio [...] não existe prioridade maior do que esta: reabrir ao homem atual o acesso a Deus, a Deus que fala e nos comunica o seu amor para que tenhamos vida em abundância (Cf. Jo 10, 10).

 

 

 

            Contudo, é preciso que a própria Igreja se reavalie de maneira bastante crítica ao ponto de reconhecer em si estruturas que dificultam o acesso a Deus, que o Pontífice lucidamente apontou. Com efeito, compreendendo a religião como dimensão humana, basta ler a realidade e perceber que Deus tem sido um conceito criado, para responder a uma quantidade de problemas. E que o Deus de Jesus de Nazaré, é cada vez mais colocado na periferia da vida, sendo mais difícil o acesso a Ele. É preciso apresentá- Lo consistentemente, rompendo com as caricaturas que iludem e decepcionam.
            Essa conceitualização de Deus está transformando a religião do Verbo, em religião de puro encantamento, que deixam atrás de si a frustração e o vazio. Dessa forma o homem de hoje já não mais encontra respostas para suas indagações, nesse contexto, apraz ainda citar Bento XVI, na referida exortação (23), que sapientemente expressa:

 

 

 

[...] devemos fazer todo o esforço para mostrar a Palavra de Deus precisamente como abertura aos próprios problemas, como respostas às próprias perguntas, uma dilatação dos próprios valores e, conjuntamente, uma satisfação das próprias aspirações.

 

 
 

 

            Quanto mais a Igreja for uma estrutura da Palavra mais ela será humana, por isso, muito mais divina, ouvindo com os ouvidos do próprio Cristo e agindo sob a égide de sua consciência, para que se apresente ao homem um novo humanismo. Não basta manter estruturas que dificultam a transmissão da fé, e que tornaram obsoletas. A Igreja mais próxima da Palavra assume para si categoricamente, a postura de Jesus de Nazaré, que respondia com questões de seu tempo aos homens de seu tempo.
            Com efeito, a Igreja, não anuncia aquilo que ela criou, mas algo precioso que foi a ela confiado, por isso, deve anunciar com mais confiança e autenticidade, desviando-se de coisas fúteis e inúteis que a leva a uma infindável regressão. Colocar em primeiro lugar a vida e a dignidade da pessoa é ter plena consciência de que se relaciona com seres viventes, que constantemente perguntam e que se organizam de formas diversas e que mesmo indiretamente terão suas consciências moldadas pelo ambiente em que vivem, e até mesmo sua imagem de Deus, torna-se um constructo relativo à sua comunidade.
            Com efeito, a sensibilidade para essa concepção é indispensável, tanto para a compreensão daquele que se expressa, quanto para a formulação de respostas. Neste aspecto, a Igreja então dialoga com a sociedade, e não apenas a imprime leis e um conjunto de caráter, que por mais idônea que seja, às vezes, são totalitários e inibem a criatividade e a liberdade do homem.
            A Igreja, enquanto guardiã da Sagrada Doutrina, é “mãe e mestra”, e nessa perfeita consideração induz-me a pensar que o problema não é o conteúdo, mas a forma com a qual ele está sendo expresso, e o caminho apresentado àquele que a ela recorre em busca de um sentido para sua existência. Contudo, ela é plenamente evangelizadora, ao manifestar que para o homem, o Criador já não é uma Potência anônima e longínqua (Cf. Evangelii Nuntiandi, n. 26). E assim ainda completa Paulo VI (47) “A evangelização deve atingir a vida: a vida natural, a que ela confere um sentido novo, graças às perspectivas evangélicas que lhe abre, e a vida sobrenatural, que não é a negação, mas sim a purificação e a elevação da vida natural”.

 

            De outro lado, o mesmo Pontífice (63), ainda salienta

 

  

 

A evangelização correria o risco de perder a sua força e se desvanecer se fosse despojada ou fosse deturpada quanto ao seu conteúdo, sob o pretexto de a traduzir melhor; o mesmo sucederia, se ao querer adaptar uma realidade universal a um espaço determinado, se sacrificasse essa realidade ou se destruísse a unidade sem a qual já não subsiste a universalidade.

 

 

 

 

 

            Aprouve colocar essa magnífica expressão do referido Papa, para evidenciar que a Igreja, tem claro para si o conteúdo e os métodos, mas é preciso pensar o como se fazer ouvir.
            Não é preciso ir longe para encontrar respostas, é necessário ser perito em humanidade e ler eficazmente os sinais dos tempos e dar a ele a resolução mais satisfatória, radicada em Jesus de Nazaré que Se apresenta como o caminho, mas não como um mero caminho, mas sim aquele que tem uma meta e um parâmetro que são a Verdade e a Vida (Cf. Jo 14, 6). E isso deve ser exposto à humanidade para que exista o fecundo diálogo para que o Reino se estabeleça de forma concreta.
            E sempre a Igreja, consciente de sua presença no tempo e no espaço, possa buscar reviver a fé que lhe foi confiada de manifestar ao mundo de uma forma a promover a vida e a dignidade de cada pessoa, cada ser humano, ávido por uma existência satisfatória. Para isso a Igreja deve estar sempre próxima de Cristo para anunciá-Lo e conseguir transmitir, ontologicamente, a boa notícia que transforma e vivifica cada homem, até a humanidade inteira.
 

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

PAULO VI. Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi. 22.ed. São Paulo: Paulinas, 2011.

 

BENTO XVI. Caritas in Veritate sobre o Desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. Documentos do magistério. São Paulo: Loyola, 2009.
 

 

­­­____________. Exortação apostólica Verbum Domini sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja. São Paulo: Paulinas, 2010.
 

 

Constituição Pastoral do Concílio Vaticano II sobre a Igreja no mundo de hoje. Gaudium et Spes. São Paulo, Paulinas, 2009.
 

 

CNBB. Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil 2011-2015. Documentos da CNBB-94. São Paulo: Paulinas, 2011.

[1] Seminarista do III ano de Filosofia. Diocese de Leopoldina – Minas Gerais.

 


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