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Um Bispo no Vaticano II: O Testemunho de Dom Geraldo Maria de Morais Penido

                        Um bispo no Vaticano II, o testemunho de dom Geraldo Maria de Morais Penido. Assim intitulamos nosso artigo[1]. Procuraremos trazer aqui com base em três cartas escritas por dom Geraldo no ano de 1963, quando participava da segunda sessão do Concílio Vaticano II um pouco de sua experiência. A primeira data de 11 de outubro, a segunda 24 e a terceira 7 de novembro do mesmo ano. Escritas com o intuito de trazer aos padres da época informações do que estava acontecendo no Concílio. As cartas são bastante claras, com relatos precisos de suas impressões e de algumas viagens que ele realizou quando lá esteve.

                       Dom Geraldo Maria de Morais Penido foi o segundo bispo diocesano e o primeiro Arcebispo de Juiz de Fora. Nascido em 08 de setembro de 1918 na cidade de Rio Manso, Estado de Minas Gerais, estudou e foi ordenado padre na Arquidiocese de Belo Horizonte. Ordenado bispo auxiliar de Belo Horizonte em 1956, foi nomeado bispo coadjutor de Juiz de Fora com direito a sucessão em 9 de novembro de 1957. Com a morte de Dom Justino em 9 de junho de 1958 passou a bispo Titular da Diocese, ficando à frente desta até 7 de dezembro de 1977, momento em que foi transferido para Aparecida, São Paulo. Participou das quatro sessões conciliares.


                        Na primeira carta relata com muita veemência a unidade do episcopado brasileiro e do trabalho realizado por todos os bispos: “Estudamos em casa os pontos do esquema. Formulam-se as proposições que lá serão levadas e os bispos que concordam com tais proposições assinam a fórmula e o Cardeal[2] fala em nome de todos os que assinaram”. E continua: “tem impressionado muito bem nossa união. Outro dia, o Cardeal falou em nome de 153 Bispos brasileiros, o que ainda não aconteceu com nenhum Episcopado. Ontem (10 de outubro de 1963), ele falou em nome de 133 bispos com relação a outros pontos do capítulo II do esquema “de Eccclesia”, Esquema que analisa a hierarquia da Igreja. Neste dia os bispos brasileiros apresentaram 39 propostas concretas de emendas para o segundo capítulo.


                       Com relação ao segundo Capítulo do referido esquema dom Geraldo ressalta a preocupação dos Bispos com relação a alguns pontos: “A questão colegialidade dos Bispos e diaconato como instituição permanente tem suscitado muita discussão e os pontos de vista mais diferentes”. Expressa sua opinião com relação ao diaconato que para ele estava sendo mal colocada. “Exigem alguns que, para a introdução do diaconato como instituição permanente na Igreja, deve-se urgir o celibato dos mesmos. Posição, a meu ver, insustentável, porque, se tenho alguns rapazes que desejo sejam diáconos e se exigir deles o celibato, então faço-os logo sacerdotes, que é o que mais interessa. Enfim, o problema é muito delicado. Tem seus pontos fracos, como tem também seus perigos”. Assim, para dom Geraldo seria melhor deixar o esquema como estava para que o Santo Padre decidisse e disciplinasse-o como achasse melhor de acordo com a necessidade de cada país[3]. Termina este assunto comentando a situação da Europa em relação ao resto do mundo, “Não nego que para a Itália, por exemplo, interessa pouco a questão dos diáconos, pois tem muito clero. Mas e os países de missão e os de pouco clero? Não lhe interessará?”. Neste sentido, Parece-nos sua opinião ser favorável a instituição do diaconato. O que podemos também concluir pelo discurso do Cardeal Câmara em nome dos bispos brasileiros que foram a favor da restauração do Diaconato permanente.


                       Sobre a votação do esquema de Liturgia, assim ele escreve: “Todas as emendas foram aprovadas (Ao todo 9). Por isso, a não ser que o Papa não queira aprovar tais decisões conciliares, o vernáculo será mesmo introduzido na Missa, haverá em determinadas condições concelebração, como também comunhão sob as duas espécies em circunstâncias bem determinadas. Enfim, aquela renovação que se discutiu tanto no ano passado, dependendo do Concílio, passará de cheio.” Mesmo que dom Geraldo apresente uma incerteza com relação a vontade do Papa de aprovação das decisões conciliares termina este ponto de modo surpreendente, afirmando que acha improvável que isso aconteça, “Pode, entretanto, ser que o Santo Padre não queira promulgar tais decisões, o que achamos totalmente improvável.”


                      Em 24 de outubro volta a escrever aos padres. Acha que o realizado até aquela data foi muito pouco e comenta logo de início as discussões sobre o esquema “de Beata Maria Virgine” do qual era profundo defensor: “Terminamos hoje o terceiro capítulo do esquema “de Ecclesia”. Falta ainda o 4º capítulo, assim mesmo se não sair vencedora a opinião que pretende suprimir o esquema “de B.M. Virgine” e reduzi-lo a um simples epílogo do esquema “de Ecclesia””. O que de fato veio a acontecer. Não houve a promulgação de nenhum documento sobre a Virgem Maria, mas a inserção de um capítulo sobre Ela na Constituição dogmática Lumen Gentium[4], Sobre a Igreja.


                    Interessante perceber que nas sessões do Concílio havia muita liberdade de falar a ponto de se pensar em uma melhor organização para as falas. Assim se refere dom Geraldo: “ Há muita liberdade de falar. Falam todos os querem e falam o que querem, apesar de os moderadores pedirem com frequência que não saiam do assunto em pauta. É bem possível, porém que as coisas mudem. Ouvi hoje falar de uma proposta feita pelo Cardeal Suenens[5] de se fazer apenas três Congregações Gerais por semana, ficando os outros dias reservados para estudos nas Conferências Episcopais nacionais e só podendo falar oradores representando grupos grandes de Bispos. Se assim for, acredito que ganharemos mais tempo.”


                     Sobre o ecumenismo ou mesmo sobre uma maior aproximação entre os cristãos das diversas igrejas, dom Geraldo não é otimista. Relata a visita que o Papa recebeu de representantes dos Irmãos separados. “Foi (o Papa) saudado por um Pastor, ao que parece, muito objetivo e muito sincero. Mas ficou essa impressão, aliás externada pelo Pastor: as divergências com a Igreja Católica são muito profundas e substanciais; não será para já a esperança de uma união sólida e duradoura. Por enquanto, o máximo que se vai conseguir será este clima de compreensão e de boa vontade.” Entretanto, apesar do tom de dom Geraldo não ser de grande otimismo com relação ao ecumenismo, sabemos dos avanços neste campo com o Concílio.


                     Dom Geraldo relata o encontro do Episcopado brasileiro com o Papa Paulo VI, no qual o Papa falou sobre a situação da Igreja no Brasil. Assim se expressa: “Mas, que conversa substanciosa! Eis o resumo do que o Papa disse: o problema da vocações sacerdotais, no Brasil, dado que o Brasil está chamado a representar no mundo de amanhã um papel incrivelmente grande; - o problema de falta de clero e como o clero deve trabalhar;- o terrível problema social, desníveis sociais, grandes fortunas em mãos de poucos e grande miséria e fome no grosso da população; referiu-se às “coroas de espinho das cidades grandes, que são as favelas’; deu-nos conselhos práticos: estar sempre no meio do povo, ser amigo e pai dos padres, aproveitar das boas relações com o governo.” Vê-se portanto que muito dos problemas abordados pelo Papa ainda continuam em nosso País, assim como é interessante o apelo do Papa para que os Bispos estejam próximos do povo e aproveitem das boas relações com os governantes. Vale ressaltar que dom Geraldo não dá ênfase ao modelo de governo, socialista ou capitalista.


                   Até aquele momento não havia a participação das mulheres no Concílio. Há então a sugestão de se incluir também a participação delas. Dom Geraldo comenta a intervenção do Cardeal Suenens sobre o assunto. “Outro dia, fez uma intervenção interessante e que desagradou a muitos, mas agradou a um maior número ainda: que as mulheres possam também tomar parte no Concílio, como os leigos convidados já estão tomando. Deseja que o Concílio tenha as portas abertas.” E continua relatando a importância do Cardeal Suenens no Concílio e acredita que será possível a participação das mulheres. “Quer-me parecer que a palavra de Suenens é sempre respeitada no Concílio. Por isso, acredito que na terceira sessão do Concílio já teremos também o belo sexo representado em Concílio.”


                     Os bispos trabalhavam bastante e recebiam também a assessoria de vários peritos. Em sua carta dom Geraldo relata a presença de vários peritos brasileiros e, devido a diversidade de formações e da presença de um perito que para dom Geraldo não tinha perícia de espécie alguma, conclui que: “só com coisas do Brasil é possível esta “marmelada””. Vale destacar a presença do Frei Baraúna que deixou para nós um ótimo trabalho sobre o Concílio. Por fim cita uma conferência do Cardeal Ruffini sobre Nossa Senhora para os bispos brasileiros em que “defende a discussão de um esquema à parte mais completo sobre Nossa Senhora e não apenas um capítulo do “de Ecclesia””. E continua de uma forma bastante descontraída “Já apostei com Mons. José Gonçalves C.SS.R. sobre os resultados da votação de terça-feira a este respeito: 10 mil cruzeiros a pagar no Brasil!”. Algumas fontes nos revelam que provavelmente dom Geraldo tenha perdido a aposta já que, como dito, não houve a promulgação de um documento específico sobre a Virgem Maria e como dom Geraldo era um profundo devoto de Nossa Senhora defendia um documento à parte.


                   Finalmente, na terceira e última carta analisada, dom Geraldo nos conta que ficava responsável de passar para o latim os discursos que o Cardeal Câmara faria no Concílio em nome dos Bispos brasileiros. “Fui convocado como sempre, para passar para o latim o falatório que o Cardeal Câmara hoje faria em Concílio, em nome de 110 Bispos brasileiros, sobre o capítulo I do “De Episcopis”. Aquilo me tomou boa parte da noite, de sorte que não pude nem participar do “buraco” que, todos os dias, depois do jantar, arranjamos aqui no meu quarto.” Nesta mesma correspondência relata uma viagem que fez ao Santuário de Nossa Senhora de Lourdes na França.


                      Fica para nós a preocupação que os bispos tinham de mandar informações sobre aquilo que acontecia no Concílio. Deste modo podemos conhecer um pouco do itinerário destes homens que participaram do maior evento da Igreja Católica em toda sua história e perceber que sem a dedicação destes e se não houvesse um grande desejo de mudança, muito pouco ou quase nada teria acontecido.

 

BIBLIOGRAFIA



BEOZZO, José Oscar. A Igreja do Brasil no Concílio Vaticano II: 1959-1965. São Paulo, Paulinas, 2005. p. 442. 453.


CARTAS de Dom Geraldo Maria de Morais Penido. 11 e 24 de outubro de 1963 e 7 de novembro de 1963.


http://www.arquidiocesejuizdefora.org.br/pagina/12. Acesso em 29 out. 2012.


KLOPPENBURG, Pe. Frei Boaventura. Concílio Vaticano II: Vol. III. Segunda sessão (set.-dez. 1963). Petrópolis: Vozes, 1964.


OLIVEIRA, Côn. F. Max. de. Sinais da Igreja no Juiz de Fora: Traços Históricos (Tomo II). Juiz de Fora, 1978.

 

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1] Artigo apresentado na XXV Semana de Teologia do Seminário Santo Antônio – CES-JF.



[2] Dom Jaime de Barros Câmara foi o quarto Arcebispo da Arquidiocese do Rio de Janeiro de 15 de setembro de 1943 a 18 de fevereiro 1971. Nasceu em Florianópolis em 3 de julho de 1894. Participou de todas as sessões do Concílio Vaticano II com destaque.



[3] Os diáconos . Em grau inferior da hierarquia estão os diáconos, aos quais foram impostas as mãos «não em ordem ao sacerdócio mas ao ministério». Pois que, fortalecidos com a graça sacramental, servem o Povo de Deus em união com o Bispo e o seu presbitério, no ministério da Liturgia, da palavra e da caridade. É próprio do diácono, segundo for cometido pela competente autoridade, administrar solenemente o Batismo, guardar e distribuir a Eucaristia, assistir e abençoar o Matrimônio em nome da Igreja, levar o viático aos moribundos, ler aos fiéis a Sagrada Escritura, instruir e exortar o povo, presidir ao culto e à oração dos fiéis, administrar os sacramentais, dirigir os ritos do funeral e da sepultura. Consagrados aos ofícios da caridade e da administração, lembrem-se os diáconos da recomendação de S. Policarpo: «misericordiosos, diligentes, caminhando na verdade do Senhor, que se fez servo de todos». Como porém, estes ofícios, muito necessários para a vida da Igreja na disciplina atual da Igreja latina, dificilmente podem ser exercidos em muitas regiões, o diaconato poderá ser, para o futuro, restaurado como grau próprio e permanente da Hierarquia. As diversas Conferências episcopais territoriais competentes cabe decidir, com a aprovação do Sumo Pontífice, se e onde é oportuno instituir tais diáconos para a cura das almas. Com o consentimento do Romano Pontífice, poderá este diaconato ser conferido a homens de idade madura, mesmo casados, e a jovens idôneos; em relação a estes últimos, porém, permanece em vigor a lei do celibato. (LG 29).



[4] CAPÍTULO VIII: A Bem-Aventurada Virgem Maria Mãe de Deus no Mistério de Cristo e da Igreja. LG 52-69.



[5] Leo-Jozef Suenens (Ixelles, Bélgica, 16 de Julho de 1904 — Bruxelas, Bélgica, 6 de Maio de 1996) foi arcebispo de Malinas-Bruxelas (1961 a 1979) e um cardeal católico (desde 1962). Foi também presidente da Conferência Episcopal Belga. Com opiniões e tendências progressistas e liberais, ele defendeu o aggiornamento (mudança) da Igreja Católica no Concílio Vaticano II (1962-1965), onde foi nomeado um dos quatro moderadores do concílio pelo Papa Paulo VI. Após o Concílio, Suenens tentou implementar reformas e influenciar a Igreja a aceitar a sua interpretação liberal do chamado "espírito conciliar", tornando-se assim num crítico da Cúria Romana e da encíclica papal Humanae Vitae, que proibiu a contracepção por meios artificiais (ex: a pílula). Além das críticas, ele foi um grande defensor do ecumenismo e do diálogo e adaptação da Igreja ao mundo moderno. Os seus contributos para o desenvolvimento da Renovação Carismática Católica valeram-lhe o Prêmio Templeton, em 1976.

Wellington Guimarães da Silva

Seminarista da Arquidiocese de Juiz de Fora, natural da cidade de Rio Preto-MG. Bacharel e Licenciado em Filosofia pelo CES-JF/ITASA e graduando em Teologia pelo CES-JF/ITASA.


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